Tem um momento na vida de quase todo empreendedor que eu chamo de "a ilusão da autossuficiência".
Você está crescendo. As decisões são suas. Você conhece o negócio melhor do que qualquer pessoa. E começa a achar que precisa — ou pior, que deve — resolver tudo dentro da sua própria cabeça.
Eu passei anos assim. Não por arrogância. Por insegurança mal interpretada como força.
Compartilhar um problema parecia fraqueza. Pedir opinião parecia dúvida. Mostrar que você não sabia a resposta parecia uma brecha para alguém questionar sua liderança.
Resultado: tomei decisões sozinho que levaram meses para corrigir. E a maioria delas teria sido diferente se eu tivesse conversado com uma única pessoa certa antes de agir.
O custo real do isolamento
Não estou falando de solidão emocional — estou falando de custo operacional.
Quando você empreende isolado, três coisas acontecem de forma silenciosa:
1. Seu ponto cego fica cego para sempre.
Todo gestor tem um ângulo que ele não consegue enxergar. Pode ser financeiro, pode ser people, pode ser operacional. Sem ninguém que te desafie de verdade, esse ponto cego nunca aparece — até aparecer na forma de um problema grande.
2. Suas decisões levam mais tempo do que deveriam.
Não porque você é lento. Mas porque você passa mais tempo processando internamente algo que uma conversa de 30 minutos resolveria. O isolamento não te protege do erro — ele só atrasa o feedback.
3. Você começa a confundir convicção com certeza.
Convicção é boa. É necessária. Mas quando ninguém te questiona, convicção vira teimosia — e você não percebe a transição.
O que mudou quando eu parei de empreender sozinho
Quando entrei na VTEX, fui mentorado por Mariano Gomide — um dos fundadores. Não era uma relação formal de mentoria. Era almoço, conversa de corredor, revisão de apresentação antes de uma reunião importante.
O que aquilo me deu não foi resposta. Foi perspectiva.
Ele não resolvia meus problemas. Ele me fazia perguntas que eu não tinha me feito. E muitas vezes, no meio da resposta, eu mesmo descobria o que precisava fazer.
Mais tarde, quando estava construindo a Maeztra, repliquei isso de forma deliberada. Criei o que chamo de "conselho informal" — três pessoas com perfis complementares ao meu: um com viés financeiro, um com viés comercial, um que já tinha vendido empresa antes. Nenhum deles era consultor pago. Eram pessoas que eu respeitava e com quem trocava ideias com regularidade.
Esse grupo informal me salvou de pelo menos dois erros que custariam caro — e acelerou pelo menos uma decisão que ficou parada por meses.
A diferença entre rede e conselho
A maioria dos empreendedores confunde networking com suporte real. São coisas diferentes.
Rede é volume. É conexão. É visibilidade. Tem valor, mas não resolve problema nenhum às 23h quando você precisa tomar uma decisão difícil.
Conselho é profundidade. É confiança. É alguém que pode te dizer uma verdade que você não quer ouvir — e que você vai ouvir de qualquer jeito porque respeita essa pessoa.
Para construir um conselho informal que funciona, você precisa de no mínimo:
• 1 pessoa que já esteve onde você quer chegar — para calibrar expectativa e evitar armadilhas óbvias de quem ainda não chegou lá
• 1 pessoa que enxerga onde você é fraco — e que não tem interesse em te poupar do desconforto
• 1 pessoa de fora do seu setor — que traz perspectiva sem o viés de mercado que você já carrega
Isso não é mentoria formal. É conversa deliberada, com frequência, com intenção.
O que eu pratico hoje
Parece simples. É raro.
A maioria dos empreendedores que conheço passa semanas — às vezes meses — sem uma conversa real sobre o negócio. Não com sócio, não com gestor, não com ninguém de fora do dia a dia.
E aí fica mais difícil saber se você está crescendo ou só ficando mais ocupado.
Checklist prático desta semana
1. Liste 3 pessoas que você respeita e que têm perspectiva complementar à sua. Não precisam ser famosas. Precisam ser francas.
2. Marque uma conversa com pelo menos uma delas nos próximos 7 dias. Sem pauta extensa — só o que está travado.
3. Defina um problema real para levar para essa conversa. Não uma conquista para celebrar. Um nó que você ainda não conseguiu desatar.
4. Ouça mais do que fala. O valor não está na sua apresentação do problema — está na perspectiva de quem está de fora.
Ação desta semana
Abra sua agenda agora. Escolha uma pessoa. Mande uma mensagem hoje — não amanhã.
"Oi, queria trocar uma ideia sobre [tema]. Você tem 30 minutos essa semana?"
Essa mensagem tem o potencial de mudar uma decisão que você está carregando sozinho há mais tempo do que deveria.
A verdade é que... empreender sozinho pode ser uma escolha. Mas empreender isolado é sempre uma perda — e você paga essa conta sem nunca receber a nota.
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Bonati
Empreender é real e não é glamouroso, mas pode ser extraordinário.